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Friday, 21 June 2019
25 anos de FSC® – tempo de celebrar e inovar!

Kim Carstensen (© FSC GD)© FSC GD

O FSC celebra 25 anos em 2019!

25 anos de trabalho em prol das florestas, dos animais e das pessoas que dela e nela vivem. Em entrevista a Kim Carstensen, Director Geral do FSC Internacional, conheça a história desta Organização, os objectivos já atingidos e os desafios que nos esperam nos próximos 25 anos.
Contamos com a colaboração de todos para garantir "FLORESTAS PARA TODOS PARA SEMPRE".


Junho de 1992 é um mês que nunca irei esquecer: o povo dinamarquês votou “não” ao Tratado de Maastricht, sem que isto conduzisse a uma situação Brexit, a Dinamarca ganhou o campeonato europeu de futebol pela primeira e única vez, e eu participei na Cimeira da Terra das Nações Unidas, no Rio de Janeiro, como membro da delegação do governo dinamarquês.
Um mês único!

A Cimeira da Terra no Rio, estabeleceu a agenda para o desenvolvimento sustentável por muitos anos e acordou vários tratados internacionais importantes, incluindo as Convenções para as Alterações Climáticas, Biodiversidade e Desertificação. No entanto, havia um tópico que estava no pensamento da maioria das pessoas, incluindo no meu, no qual a Cimeira foi uma grande decepção: não foi possível chegar a nenhum acordo significante e vinculativo relacionado à gestão sustentável das florestas do mundo. A perda de florestas tropicais estava no topo da agenda, mas os governos não tomaram medidas que fizessem uma diferença efectiva.

O FSC não foi criado na Cimeira da Terra. Os preparativos começaram anos antes, mas tenho certeza de que a decepção fortaleceu a determinação de encontrar outras soluções. Se os governos não estavam dispostos a resolver as questões, outros agentes precisavam de tomar uma posição, e o FSC foi uma resposta clara para esse desafio, oferecendo uma solução impulsionada pelo mercado, em vez do poder público.

Para ser sincero, não acreditava que o FSC chegaria tão longe,quando em 1994 ouvi falar nesta Organização. Achei a ideia brilhante, e pude ver que seria uma óptima ferramenta para ONGs ambientais e sociais, pois permitia ir para além do "boicote", aquando da campanha contra a madeira proveniente de países em desflorestação, violações de direitos humanos e outros problemas inaceitáveis. Mas não acreditava que o FSC se tornaria realmente determinante nos principais mercados. E por muitos anos isso não aconteceu.

Nos anos 90, trabalhava para a WWF na Dinamarca e na altura promovemoso FSC nas nossas campanhas e projectos. Mas a Dinamarca não é um país florestal, e ao longo dos anos a nossa atenção virou-se para outras questões, como as alterações climáticas e a pesca. Eu perdi um pouco o rasto ao FSC – comprava produtos certificados quando possível, e pouco mais – e foi só em 2012, quando alguém me disse que eu deveria candidatar-me ao cargo de Director Geral do FSC, que comecei a focar-me novamente no sistema.
E imaginem a minha surpresa! Entretanto, o FSC tinha-se tornado numa associação de relevo, com 150 milhões de hectares de florestas certificadas em todo o mundo e com produtos rotulados FSC, em quase todas as prateleiras por onde passávamos.

Desde 2012, o FSC continua a crescer em número de associados, em área certificada e em importância no mercado. Tornamo-nos na solução de gestão florestal sustentável mais confiável do mundo, com impactos positivos para as florestas, mercados e pessoas – no presente e no futuro.
O nosso 25º aniversário é uma excelente oportunidade para olhar para trás com orgulho, assim como, para olhar com entusiasmo para os próximos desafios que precisamos de enfrentar e para as aspirações que precisamos cumprir.

O FSC criou um paradigma completamente novo para o envolvimento das partes interessadas na gestão florestal. O equilíbrio no sistema de governança e tomada de decisão do FSC garantem que agentes sociais, ambientais e económicos, se unam para estabelecer Normas para uma gestão florestal responsável, tanto ao nível global, como nacional. E esse é o “cerne” do FSC: reunimos diversos interesses na definição do que significa a gestão florestal responsável. Construímos um sistema onde os grupos de interesse precisam de se unir. Nenhuma Parte Interessada prevalece às demais e, para chegar a uma decisão, a maioria de cada grupo precisa estar de acordo. Nenhum outro sistema, seja governamental ou privado, jamais chegou perto de criar este verdadeiro envolvimento das partes interessadas, na tomada de decisões.
Este é, naturalmente, um sistema onde nem todos estão completamente satisfeitos com todas as decisões tomadas, uma vez que elas dependem sempre de compromisso. E geralmente leva muito tempo para se chegar a decisões, o que nos pode deixar frustrantemente lentos na reacção a novos desafios. Mas quando o sistema funciona, as nossas decisões são genuinamente democráticas e, portanto, verdadeiramente sólidas, porque refletem os pontos de vista e interesses de todas as partes afectadas e interessadas.
O FSC foi um dos primeiros sistemas de gestão ambiental a introduzir uma verificação independente de terceira parte. Ao longo dos anos, o FSC criou muitas inovações que têm influência significativa na maneira como as florestas são geridas, e essa influência vai muito além da área certificada pelo FSC, como por exemplo:
• O conceito de florestas de alto valor de conservação foi desenvolvido no FSC e actualmente é referido e usado por muitos agentes fora do sector florestal. Isso tem um impacto positivo para a protecção ambiental e benefícios sociais em muitas áreas, por exemplo, nas commodities agrícolas;
• A madeira controlada tornou-se numa norma industrial para muitos agentes do sector florestal, “levantando efectivamente o chão” da gestão florestal em muitos países. É claro que a madeira controlada tem sido um conceito muito controverso no FSC, porque muitas partes interessadas não achavam a Norma era suficientemente forte. Com a nova Norma de madeira controlada em vigor, com avaliações de risco FSC realizadas em todos os países fornecedores de relevância, e com o acordo do FSC para a estratégia de madeira controlada, acredito que agora podemos ter a oportunidade de começar a reconhecer os benefícios reais da madeira controlada para as florestas do mundo, e usá-la como um “trampolim” e um forte impulso para a certificação florestal FSC.

Fico muito orgulhoso quando vejo estudos como a avaliação do Centro de Pesquisa Florestal Internacional, de 2015, sobre os impactos sociais da certificação FSC na Bacia do Congo na África Central. O estudo mostra que nessa área - uma das mais pobres do mundo - os trabalhadores e as comunidades locais têm melhores condições sociais nas áreas de floresta certificadas pelo FSC. Independentemente do que os investigadores pesquisaram - educação, saúde, acesso a água e saneamento, acesso a energia, etc. – as condições de vida numa floresta certificada pelo FSC são melhores.
E temos uma série de outros dados de estudos ambientais, que mostram que as florestas certificadas pelo FSC, apresentam melhor desempenho ambiental do que outras áreas em termos de protecção de espécies, protecção de ecossistemas vulneráveis, gestão de bacias hidrográficas e muitos outros factores.

O FSC tem muito do que se orgulhar nestes seus 25 anos de história. Mas também é justo dizer que não conseguimos tudo o que queríamos, pelo menos não ainda!
Deixem-me mencionar dois exemplos em que as nossas soluções não se tornaram tão difundidas quanto queremos que sejam:
• Desenvolvemos ferramentas muito importantes para a certificação de pequenos proprietários e comunidades, incluindo a certificação de grupo e Normas para certificação SLIMF (florestas de pequena ou baixa intensidade de gestão). No entanto, independentemente dessas ferramentas e apesar de termos bons exemplos em diferentes países, os pequenos proprietários e as comunidades certificadas não são suficientes. Portanto, estabelecemos um projeto ambicioso, chamado New Approaches “Novas Abordagens para a Certificação de Pequenos Proprietários”, que está a desenvolver e testar novas ideias para tornar a certificação do FSC mais atractiva e viável para pequenos proprietários e comunidades. Este trabalho é uma das grandes prioridades para a nossa organização, no presente e no futuro;
• Também queremos ver muito mais florestas naturais certificadas. As florestas tropicais estão a ser destruídas e, em muitos países, a má governança, a corrupção e outras questões associadas, tornam muito difícil uma gestão florestal responsável, em detrimento da extração ilegal de madeira. Muitas florestas tropicais estão sob forte pressão da exploração madeireira ilegal e da desflorestação que é impulsionada pela expansão das commodities agrícolas. O FSC não poderá resolver sozinho estes problemas, mas estamos a trabalhar com governos e outros parceiros em soluções como incentivos fiscais ou recompensas financeiras, que tornarão o campo de actuação mais justo para as empresas certificadas, recompensando-as pelo seu bom desempenho ambiental e social.
Vemos isso como uma grande ambição para o FSC nos próximos anos, para cumprir a nossa missão de garantir "Florestas para Todos para Sempre".

Em parte devido ao sucesso global do FSC e ao elevado reconhecimento do nosso logotipo em muitos países, tornamo-nos um alvo tentador para quem quer vender produtos com a marca FSC, mas que não quer passar pelo processo de certificação. A fim de descobrir e actuar em questões de uso indevido da marca ou tentativas de fraude, desenvolvemos um programa de Integridade da Cadeia de Abastecimento, que trabalha com a Assurance Services International, ASI, Instituições de investigação e outros, para desenvolver soluções modernas de alta tecnologia para fortalecer o nosso sistema. Verificações de transações, tecnologias de identificação de madeira, detecção remota e outras ferramentas, são alguns dos nossos esforços e que já levaram à suspensão de vários certificados, onde irregularidades e fraudes foram detectadas. Um exemplo é o actual esforço de controlo no mercado de carvão na Europa.
Iniciámos o processo de implementação de uma série de inovações tecnológicas muito importantes para fortalecer o nosso sistema, incluindo Earth Observation, e estamos a trabalhar para melhorar o formato utilizado em auditorias realizadas anualmente junto dos Titulares de Certificado FSC, para que possamos entender e aprender com a riqueza dos dados desses relatórios.
Também estamos a trabalhar para modernizar e inovar o FSC em várias outras áreas. Por exemplo, recentemente nomeámos um Director para as Alterações Climáticas, cujo papel principal será garantir que a certificação FSC seja reconhecida e usada como uma solução para documentar o forte desempenho climático da gestão florestal. Sem uma gestão florestal responsável, o mundo não será capaz de resolver a crise climática, e o FSC tem as ferramentas para ser uma parte importante da solução para os decisores políticos, investidores e gestores florestais.

Outro dos exemplos que iremos dinamizar nos próximos anos, são as parceria, por exemplo, para promover uma abordagem à escala da paisagem, onde vemos as áreas florestais certificadas como parte de áreas mais amplas. As florestas do mundo não serão protegidas e geridas com responsabilidade, se não encontrarmos soluções sustentáveis para as áreas agrícolas fora das florestas e para as pessoas que dependem delas. O FSC não pode resolver esses problemas, e essa não é nossa função, mas podemos trabalhar em cooperação para promover soluções que funcionem tanto para as florestas, quanto para áreas adjacentes.

Olhando para os nossos 25 anos de história, o FSC tem muito do que se orgulhar, e ainda mais do que nós e outros podemos aprender. E quando assumirmos esses aprendizados e os combinarmos com iniciativas ousadas para inovar o nosso trabalho, teremos uma combinação de ideias muito poderosas, que se unem para aumentar ainda mais o nosso impacto positivo para as florestas e para as pessoas em todo o mundo. Desta forma, os nossos primeiros 25 anos podem tornar-se a “stepping stone” para os próximos 25 anos de trabalho em prol de “Florestas para Todos para Sempre”.


Kim Carstensen, Director Geral do FSC Internacional


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